Sexta-feira, 04 de Julho de 2014
Aqui vos deixo um bom artigo para ler e reflectir.

António José Teixeira




OPINIÃO

18:46 26.06.2014
Importam-se de parar de brincar à Esperança?

Nunca tantos quiseram recuperar a Esperança. Perto de Arroches, no Alentejo, muitos holofotes se ergueram em nome da Esperança. Muita tinta, muita publicidade, muita prosápia, muita colagem a um topónimo arredio. Não foi a aldeia, os 739 habitantes, as terras raianas, que chamaram um banco, o Presidente da República e o ministro da Educação. Foi o nome: Esperança. Nome perfeito para uma campanha comercial e política. Promover a Esperança, recuperar a Esperança, soam bem. Esperança é um sentimento positivo, confiança numa coisa boa. Dizem também que é a segunda das três virtudes básicas de um cristão, ao lado da fé e da caridade…

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Há três meses quiseram recuperar a Esperança. Nuno Crato não resistiu ao impulso. Lá foi. Não deve voltar lá tão cedo. Perdeu a Esperança. Esta semana anunciou o fecho da escola da Esperança. Tinha menos de 21 alunos… Tinha sido pintada, melhorada, mas – descobriram agora – não tinha os 21 alunos decretados. Desgraçada Esperança. Pouco importa que, apesar da baixíssima taxa de natalidade, a Esperança tenha mais de duas dezenas de crianças no pré-escolar.

A ironia da desesperada decisão do Governo não precisa de ilustração. Afinal a Esperança foi condenada num lote de 311 escolas. A sentença vem de longe. Foi José Sócrates que iniciou este processo. Valha a verdade, muitos compreenderam a inevitabilidade e até as vantagens da concentração de escolas. Dois, três, sete, 10 alunos, turmas únicas com alunos de diferentes anos de escolaridade, isolamento, fracas condições de aprendizagem, tudo se conjugava para concluirmos das vantagens da transferência das crianças para centros escolares mais equipados e com melhores condições de integração. Ainda assim sobravam os inconvenientes da distância e do esvaziamento mais acelerado dos pequenos aglomerados, sobretudo do interior. Opções legítimas desde que assumidas com clareza.

O encerramento de escolas do 1.º ciclo tornou-se uma rotina desde 2005. Em três anos este governo fechou 923 escolas. Mas se as somarmos às que sumiram antes já vamos em mais de quatro mil escolas desmanteladas. Não será demais? O processo é imparável? A população residente está a minguar e a natalidade não pára de baixar. Por este andar, não será que os únicos destinos para as nossas crianças são as escolas de Lisboa e Porto? É isso que queremos?

Portugal tem recursos limitados. Tem de fazer escolhas. Escolas, centros de saúde, segurança social, comunicações, tribunais, polícias e bombeiros são dimensões do Estado que devem obedecer a um critério de organização territorial. Não apenas a um critério economicista, que é relevante, mas não suficiente. Talvez num futuro próximo vivamos todos em cidades. Talvez boa parte do território se destine à floresta. Talvez tudo isto seja exagerado. Já tínhamos decretado o fim da agricultura e, afinal, não era boa ideia. Está a ressurgir. Precisamos dela. Como precisamos de gente, de mais coesão territorial e social. O esvaziamento continuado de muitas parcelas do território não resulta só do envelhecimento. É também a consequência do desinvestimento privado e público, da retirada dos marcos de serviço público. As escolas do 1.º ciclo do ensino básico são sinais de civilização, portas e janelas indispensáveis para qualquer horizonte de futuro. A reorganização da rede escolar não pode ser apenas uma questão aritmética. Há outros critérios a considerar. Os pedagógicos não são irrelevantes, mas devem ser conjugados com objectivos estratégicos nacionais e, consequentemente, com uma rede coerente de serviço público.

A inércia como critério não ajuda à agonia demográfica. O número 21 como fronteira da sobrevivência escolar é absurdo. As boas escolas e as escolas necessárias implicam outras abordagens. Há uma fundamental: Que estratégia de crescimento económico queremos adoptar? Esta decisão remete para outras abordagens: Como queremos organizar o território? Que espaço de manobra deixamos à sociedade? Perguntas há muito sem resposta cabal. Perguntas que exigem compromissos de futuro. Mas a que, teimosamente, não respondemos.

Em qualquer caso, importa parar de brincar à Esperança…
publicado por alertamadrugada às 15:14
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